Sobre olhares e outras coisas.

Sempre tive essa relutância em acreditar no óbvio. Sou o último a ver a ficha cair e, às vezes, vejo até vantagens em curtir mais um pouco a onda psicodélica de felicidade resultante de uma notícia extraordinariamente boa. Após a alegria do resultado do vestibular, a felicidade da comemoração e dos infinitos abraços, a emoção da matrícula, a possibilidade de desfrutar de uma pseudo vida social da qual me abdiquei ano passado, veio à grande surpresa, o ELV-SUS (Estágio Local de Vivência - SUS).
Cheguei meio que tímido e receoso sobre tudo. Inerte, na verdade. E voltei uma nova pessoa. Acho que cresci seis anos em seis dias e ainda estou aqui, rememorando cada detalhe, cada gesto e cada olhar vivenciado. Incrível é descobrir o quanto estamos aptos a conhecer mais sobre nós mesmos. Que uma palavra de afeto a qual, para muitos possa ser mera banalidade, para outros, pode ser um tudo. Que o tudo, muitas vezes, não é o suficiente. Achei que ia me deparar com um Sistema de Saúde inoperante, inacessível, inválido, incapaz de ajudar alguém. Surpreso fiquei em conhecer lugares como Cemerf, como o CAPS II e o CAPSad, e descobri que há esperanças. Esperança concretizada no olhar de Angélica, uma das usuárias do CAPS II que, em uma inteligência e lucidez inacreditável, nos fez acreditar que vale a pena fazermos algo. Entrei sem conhecer o SUS e, de perto, vi que escondido entre as falhas e críticas, há um SUS que funciona, ajuda as pessoas, não distingue raça, idade, deficiência e problema. Hoje, acredito em um SUS que pode dar certo. Que pode salvar vidas.
Passei a maior parte da minha vida reclamando sobre desafetos, incoerências, hipocrisias. Não dava valor a detalhes que podiam fazer a diferença. Sempre estive preocupado demais com meus problemas os quais, hoje, parecem tão pequenos, perto de olhares como o da Angélica. Nessa semana, eu tive a certeza de estar no lugar certo, de me sentir em casa e disposto a mudar as inperfeições. Para mim, foi extremamente intenso e válido conhecer as pessoas que conheci, de viver seis dias com pessoas inacreditáveis e sensacionais. Mas o estágio, para mim, foi mais do que a integração e reconhecimento de potenciais amigos. O ELV foi sobre mudanças. Mudança de ideologia, mudança de mentalidade, mudança de olhar. O estágio foi sobre mudar vidas e isso estava bem expresso nas lágrimas de muitos. Hoje, vejo minha ficha caindo, talvez ainda de forma muito lenta. Mas, ao contrário de antes, já me sinto acostumado com esse amor, com essa inquietude e essa vontade de fazer mais. O ELV foi sobre mudar vidas. Mudou a minha.
Nota: aos que foram pro ELV,fica meu muito obrigado. Mantenham essa chama acesa. Somos o futuro, somos àqueles que podem – e irão- fazer algo. Saudade, todo mundo.
This entry was posted on 13:31
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3 comentários:
. Mudança de ideologia, mudança de mentalidade, mudança de olhar.
Isso é felicidade...
parabéns pelos pensamentos positivos, mesmo aqueles q são inquietos. e tb pelo ELV. e por traduzir tão abertamente q é fã do meu texto (entendi q não é meu fã, é do texto. rs.). e, de novo, por ter passado e conquistado seu sonho. por morar numa cidade q amo e morei quase dez anos. por ter o mar perto de vc. parabéns até pela música boa de comemorar q esta q tou escutando qdo entrei no seu blog. por fim...tem texto novo meu lá. leia, sinta, comente se puder. bjo grande no coração.
E essa nova etapa de vida? Como que segue?
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